O garoto jordanense que aos 13 anos era um prodígio dos negócios

Com 13 anos Norbeto Costa era uma espécie de Sílvio Santos jordanense. Tinha dois bares, um carrinho de pipoca e estava à procura de um motorista que dirigisse o Monza […]

Com 13 anos Norbeto Costa era uma espécie de Sílvio Santos jordanense. Tinha dois bares, um carrinho de pipoca e estava à procura de um motorista que dirigisse o Monza – carro sensação da época – que ele planejava comprar. É um patrimônio que ele havia construído a partir dos oito anos de idade, fazendo todo tipo de serviço: engraxando sapatos, entregando compras, lavando louça, mostrando passeios, servindo de office boy, trabalhando de cobrador de ônibus e, especialmente, criando a ponte para transações que lhe rendiam generosas comissões. Só que a precocidade empresarial se extinguiu subitamente quando um grave acidente tirou dele quase todas as memórias.

Com o pai doente e tendo que arrumar dinheiro para o sustento da mãe e dos irmãos, aos oito anos Norberto colocava a caixa de engraxate nas costas ia para a batalha. Aos domingos ele chegava às 7h00 no Capivari e oferecia os serviços aos senhores que iam para a missa. Atento a tudo e ágil na comunicação, a cada engraxada obtia alguns trocados e informações que poderiam ser valiosas.

Bom de negócios

Houve um momento que ele já sabia quem era o dono deste ou daquele comércio e quais estabelecimentos estavam à venda. Tais informações Norberto coletava no centro da Abernéssia, na antiga rodoviária, nas praças e em qualquer outro lugar onde desse para engatar uma conversa. Ágil, se um turista perguntasse pelos pontos turísticos, já se oferecia para mostrar a cidade.

Como falava bastante e era prestativo, “o garoto” atraiu a simpatia de um conhecido corretor do Capivari. Norberto, então, virou uma espécie de assessor e ficava horas na imobiliária. Lá, começou a entender como eram feitas as transações.

E mais do que isso: com 12 anos Norberto identificava quem tinha capital e disposição para investir e dava dicas “de bons negócios”. Exemplo dessa perspicácia para tirar da manga uma boa oportunidade aconteceu quando um homem o indagou por “uma casa com preço bom”. Norberto não teve dúvidas: disse que na Vila Cláudia estava o imóvel que agradaria qualquer pessoa por ser bom, bem localizado e barato.  A intermediação garantiu ao menino uma generosa comissão.

Olhos sempre abertos

Aliás, algo parecido aconteceu comigo. Mas deixo o Norberto contar: “O Ricardo precisava de um local para vender as verduras e frutas que ele produzia no sítio. Então, perguntou se eu sabia de algum ponto. Disse para ele que um senhor estava passando o boxe no Mercado. O Ricardo se entendeu com o dono do boxe e acabei ganhando um trocadinho”, conta.

Nessa mesma época eu ia com frequência a São Paulo para fazer compras e comecei a levar o Norberto comigo. De novo, deixo ele contar: “Eu gostava de ir porque era a chance que eu tinha de comer bem”. Mas a verdade é que o Norberto sabia aproveitar essas viagens para aprender. Os olhos dele trabalhavam como um scaner e registravam tudo: o local do estabelecimento, os produtos, os preços nas gôndolas e tudo o mais.

Cabe ressaltar que nessa época o Norberto também fazia bicos de copeiro e entregador de marmitas no Restaurante Capivari. Quando voltávamos, ele “fazia um relatório” para o Vasco (hoje dono do Baden Baden) de como estavam os preços em São Paulo. Então, no dia seguinte lá ia o Norberto de volta para a capital, só que dessa vez fazendo companhia ao Vasco.

Encontro com um rei

E ele seguia engraxando. Certo dia teve uma surpresa. O Boulevard tinha acabado de ser inaugurado. Um homem no entorno, de voz forte e cabelos fartos, topou estender a perna para uma engraxada clássica. Essa pessoa era ninguém menos do que Roberto Carlos. “Ele foi muito simpático comigo”, observa Norberto. Mas o rei não foi a única celebridade com quem Norberto teve contato. Em outra ocasião ele se defrontou com Amado Batista. Já Sula Miranda o adotou como queridinho. E por um detalhe: “Ela dizia que eu tocava uma sambinha gostoso e falava: toca aí e canta”, conta.

Mas entre os múltiplos serviços que Norberto abraçava, também estava o de boy da Delegacia. Lá, o carismático delegado doutor Gil o incumbia de ir ao banco tirar cópias de documentos e outras pequenas tarefas. Um dia doutor Gil o surpreendeu com um presente. “Ele me deu um carrinho de pipoca. Era para ganhar um dinheirinho”, assinala Norberto.

Após ganhar o carrinho do delegado, Norberto ficou sabendo que um bar estava à venda na Vila Albertina. Correu para comprá-lo. Nos poucos momentos que sobravam, o garoto Norberto atendia atrás do balcão Só que alguns meses depois, outro bar foi colocado à venda, perto de onde hoje fica a Gold Finger. Norberto enxergou a oportunidade e também o comprou junto com um sócio. Ficou com dois bares.

Aos 12 anos já precisava de um motorista

Tendo que se mover rápido de um lado ao outro, Norberto decidiu comprar um carro. Chegou a ir à concessionária e escolheu até o carro: um Monza. Mas esbarrou num problema. Não achou quem guiasse para ele. Enfim, tudo indicava que o garoto empreendedor se firmaria como um tubarão do porte de um Donizete Salvador. Mas, no dia 3 de agosto de 1987 veio evento trágico. Norberto subiu na bicicleta com a qual seguiria para a garagem da Viação Mantiqueira, onde também trabalhava como cobrador.

Próximo ao convento das Beneditinas, o choque com um buraco o lançou contra a guia do asfalto. Transferido para Taubaté, ficou sete dias em coma e quatro meses se recuperando do traumatismo craniano. O dano não poderia ser mais nefasto e preciso. A memória dele foi praticamente aniquilada. O acidente também repercutiu no pequeno patrimônio que ele tinha começado a formar. No tempo que ficou internado Norberto perdeu os dois bares e o carrinho de pipoca sumiu.

“Nessa época uma pessoa que me ajudou muito foi o Ricardo. Ele inclusive encarregou uma professora de me reensinar a ler”, lembra. Mas isso não impediu que o Norberto, anos depois – já como fiscal –, viesse me notificar por algo relacionado ao Guia que nem me  lembro direito.

Acontece que, algum tempo depois do acidente Norberto sentiu um progresso acentuado na recuperação da memória. Nem tudo voltou, mas em 1989 ele se pôs a estudar para um concurso de fiscal da Prefeitura e foi aprovado. Com discernimento pleno das coisas, Norberto só não tem ainda a lembrança total dos eventos que aconteceram antes do acidente. “Minha memória continua voltando”, diz. Com 43 anos, ele tem três filhos e está construindo uma casa no Vale Encantado. “O meu sonho é poder intermediar de novo os negócios como eu fazia quando ainda era criança”, afirma.

 

 

 

 

 

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