Livro mostra que a cidade construiu além do limite e ocupação se deu sem planejamento

Campos do Jordão chegou ao limite da ocupação humana e tem que dar um basta urgente a novos empreendimentos imobiliários. Se não for assim, teremos mais destruição da paisagem, pressão […]

Campos do Jordão chegou ao limite da ocupação humana e tem que dar um basta urgente a novos empreendimentos imobiliários. Se não for assim, teremos mais destruição da paisagem, pressão insustentável por moradias, risco de novas invasões de áreas verdes e mais adensamento dos bairros e áreas de risco. É o diagnóstico que se tem do livro “A busca por um pedaço de chão em Campos do Jordão”, escrito pela pesquisadora e psicóloga formada pela USP, Renata Meneghini, que também é aluna do curso de doutorado da Univap.

Ocupação das encostas foi moeda de troca por votos

O livro é resultado de uma extensa pesquisa científica e mostra como a especulação imobiliária que se instalou no começo dos anos 1900 foi ganhando força e  atingiu seu ápice nos anos 70. A avalanche de casas e prédios construídos a partir desse período atraiu várias ondas migratórias. O poder público, por sua vez, nada fez para criar uma política habitacional no município e, o que é pior, fechou os olhos para as invasões de áreas verdes que resultou na ocupação desenfreada de áreas de risco, como se observa nos bairros que cercam a Abernéssia e que se estende por outros bairros.

Como bem frisa a autora, a permissão de ocupação serviu como moeda de troca em favor de votos. Já a cidade – como destaca a pesquisadora ao citar vários especialistas – poderia ter crescido organizadamente e mantido uma distribuição adequada do espaço, acompanhada por harmonização arquitetônica, se os vários representantes da sociedade tivessem se unido no planejamento de um projeto turístico.

 Construção atraiu ondas migratórias

Segundo a pesquisadora, ainda no ciclo da tuberculose (1879-1940), Campos do Jordão já sofria com a especulação imobiliária. Ela menciona inclusive que o slogan “Suíça Brasileira” foi um termo forjado por Domingos Jaguaribe – que além médico e politico também era um investidor –, e teria interesses em chamar a atenção para o campo imobiliário local.

Mas foi com o ingresso no cenário local do Palácio Boa Vista, que a cidade ingressou numa fase antagônica: o turismo encontrou o seu esplendor, mas a exploração imobiliária explodiu e a paisagem foi drasticamente modificada. Ocorre que enquanto o turismo era um vetor de desenvolvimento e geração de riquezas, a face suntuosas das construções cobrindo a paisagem funcionava como um canto de sereia que passou a atrair grupos migratórios.

População foi adestrada a “morar de qualquer jeito”

Migrantes em busca de trabalho vieram estimulados por redes de companheiros, sem contudo, diz a autora, ter condições para adquirir ou sublocar imóveis, o que acarretou a invasão das áreas verdes, a maioria localizada em encostas.

Segundo a pesquisadora, as primeiras favelas apareceram na década de 40 e se esparramaram pelos morros a partir dos anos 70. Ela diz que o pedaço de área verde era abocanhado em troca de votos e ilustra isso aludindo a escritos de Pedro Paulo Filho: “Vamos muié, temo que votá naquele que deu o terreno da nossa casa”. Essa parcela da população que veio a habitar as encostas foi, segundo Renata, adestrada a morar de qualquer jeito e, atribulada com as questões da sobrevivência, ergueram moradias em áreas de risco, sujeitas, portanto, a ocorrência de tragédias como as do ano 2000.

Desafio é corrigir erros e ter bom planejamento

Pagando o preço da omissão pretérita, as autoridades têm hoje o desafio de implantar planos habitacionais para remover essas populações. Contudo, os governantes atuais se defrontam com a inexistência de áreas que não apresentem restrições ambientais.

Fica a seguinte lição: a cidade chegou ao limite e não suporta que surjam mais construções. Elas prejudicam a paisagem, impactam o trânsito, propiciam a geração de lixo doméstico, pressionam o consumo de água e ensejam novos movimentos migratórios. Na verdade, essa desorganização ocupacional não é uma exclusividade de Campos do Jordão e atinge grande parte das cidades brasileiras.

Pegando carona num tópicos abordados por Renata Meneghini, há tempo ainda para um projeto que dê sustentabilidade ao turismo. Isso implica na educação turística voltada aos órgãos públicos, empresários e população em geral. A comunidade tem que participar na elaboração de diretrizes que aprimorem o turismo e traga desenvolvimento, priorizando a preservação ambiental, manutenção de laços históricos e identidade local.

(Ricardo Castelfranchi e Roberto Bretanha)

 

 

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