A cozinheira que conquistou o paladar de famílias poderosas.

Regina Borges sempre usou a intuição para criar pratos e sabores que viriam a conquistar famílias de sobrenomes tradicionais como Baumgart, Kowarick e os Maluf. Isso para não falar na […]

Regina Borges sempre usou a intuição para criar pratos e sabores que viriam a conquistar famílias de sobrenomes tradicionais como Baumgart, Kowarick e os Maluf. Isso para não falar na comida preparada para o time de artistas que a revista Caras trazia a Campos do Jordão. Mas dentro da cozinheira talentosa havia também o espírito da empresária, que fez de uma simples coxinha um fenômeno: a coxinha do alemão. “Teve dia de eu fazer quatro mil salgados”, diz.

Sabendo que o industrial Kurt Baumgart precisava de gente para cuidar de sua propriedade, ela não se dobrou às advertências do pai de que era muito difícil alguém se adaptar aos rigores daquela casa. Um caseiro vizinho de Kurt concordou em levá-la até o empresário, o qual disse que estava à procura de um casal de empregados e não de uma mulher: “Às vezes, o marido não faz falta”, disse ela, ganhando 30 dias para ser testada.

Assim, viúva e com quatro crianças, Regina se tornou a caseira, a jardineira e a cozinheira. No prato de estreia fez pernil com caramelo e abacaxi. Os patrões se encantaram. Sempre atrás de novas receitas, e mostrando dedicação e talento, ela foi ganhando a confiança da família dona da Vedacit. Foram nove anos até que, envolvida num relacionamento amoroso e com uma gravidez de risco, deixou a casa. Perdeu o bebê, ficou 16 dias em coma e precisou de um ano para se recuperar.

Cozinhando para os Maluf

Contratada para cuidar de uma casa perto do Palácio onde os donos vinham pouco, Regina foi ser cozinheira de fim de semana e acabou como a “chef” dos Kowarick. Pouco depois, em 1995, foi admitida na casa usada pela Revista Caras para receber artistas como Regina Duarte e Antonio Fagundes. Era para esses artistas que Regina cozinhava.

E aconteceu de ser contratada como arrumadeira na casa de Paulo Maluf. Era uma propriedade grande, movimentada e com vários funcionários (passavam de 30 na temporada). Com funções bem definidas, os serviçais seguiam várias regras e ficavam restritos a seus setores. E, era assim, já levada a integrar o time das cozinheiras (três), que Regina via o patrão Paulo Maluf adentrar ocasionalmente setores como a cozinha e a lavanderia. “Cumprimentava a todos, formal mas muito gentil”, observa.

Não havia cardápio previamente estipulado. “Combinávamos de manhã o que íamos fazer e o esquema funcionava bem”, diz. Ocorreu, então, de a nora de Maluf organizar uma recepção onde seriam servidas fondues de queijo, carne, camarão e chocolate. Tudo estaria a cargo de um serviço de bufet. Mas, por um mal entendido a  equipe não apareceu. Surpreendida, a nora de Maluf não sabia o que fazer quando Regina se pôs à frente da situação: “Se a senhora quiser, posso preparar as fondues”. “Você está dizendo que o meu problema acabou?”, reagiu a patroa.

A prova de fogo

O desafio eram os molhos. E veio a prova de fogo com o vaivém dos copeiros levando  travessas e réchauds. No adiantado da noite, o receio virou alívio com as pessoas maravilhadas.  Regina foi chamada ao salão onde estavam 40 convidados. Lá, passou a receita às mulheres que a interpelavam sobre os molhos. A surpresa maior porém, veio no dia seguinte com um envelope no qual estava uma quantia com duas vezes e meia o que ela ganhava.  Referindo-se aos Maluf como patrões maravilhosos, Regina deixou a casa depois de vários anos por problemas na coluna cervical.

Feito o acerto, ela e o ex-companheiro, Laércio – o Alemão –, passaram a tocar um bar ao lado do Shell Scófano. O desafio era mudar a imagem do boteco, segundo Regina “mal cuidado e de pouco asseio”. Após a plástica no visual, veio à tona a face empresária dela. Percorrendo a Abernéssia, dizia de porta em porta que haveria uma feijoada especial feita por ela. No sábado, 72 pessoas foram conferir de perto. Uma semana depois apareceram 280 clientes.  “Não sobrou comida nem para o meu filho”, relata. Mas mesmo preparando tudo em casa,  a Vigilância Sanitária ordenou adaptações na cozinha, que acabaram realizadas. Só que nesse meio tempo Regina já havia se concentrado em outros quitutes, os salgados, especialmente coxinhas.

Salgadinho que virou sítio

Ela abria pessoalmente a massa, fazia o tempero e fritava de um jeito que dava a impressão reter pouco óleo. Era uma coxinha gostosa e barata. Quem não tinha R$ 1,00? Começou vendendo 100 por dia, 200, 300 e logo estava atendendo festas e eventos. “Teve dia de entregarmos 4 mil salgados num dia”, período em que chegou a ter 12 funcionários.

Com uma rotina apertada, levantava às 4h30 para abria o bar às 6h30, quando os caminhoneiros já estavam esperando o café. “Tudo era fresco, não tinha nada congelado”. Foi com esse trabalho que ela construiu uma segunda casa, vistosa e grande, comprou caminhonete e até um sítio de 12 alqueires. Contudo, questões pessoais levaram-na a afastar-se do bar. As coxinhas ficaram para trás, mas não o gosto pela cozinha.

No outro lado da cidade, perto da rodoviária, Regina arrendou um restaurante, o “Zé do Pai”. Entre os clientes estão vereadores e pessoas em trânsito. “É comida simples, mas saborosa” diz a cozinheira de 63 anos, que fez do limão dado pela vida uma limonada.

(Ricardo Castelfranchi e Roberto Bretanha)

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