1703 – Gaspar Vaz, alcunhado “O Oyaguara” abre o primeiro caminho de Pindamonhangaba ao Sapucaí. Como seu objetivo era só o de transportar por ali ouro das minas de Itajubá, esse caminho mais tarde foi fechado por ordem real.

1711 – Surge a figura lendária de Inácio Caetano Vieira de Carvalho. Em 1773, sob a alegação de que as terras haviam sido abandonadas devido ao frio intenso e ao grande número de onças existentes, requereu e obteve sesmaria. Fundou a Fazenda Bom Sucesso.

1825 – As terras são vendidas ao Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, por escritura pública lavrada a 27 de novembro. Sendo o Brigadeiro Jordão figura histórica da nossa Independência, o povo, que nessa altura denominava o local apenas de os “Campos”, passou então a chamá-lo de os “Campos do Jordão”.

1874 – Matheus da Costa Pinto, tendo adquirido uma parte das terras que pertenciam ao Brigadeiro Jordão, transfere-se de Pindamonhangaba para os “Campos do Jordão” onde, a 29 de abril de 1874 deu início a diversas construções, fundando, assim, o primeiro povoado, que denominou São Matheus do Imbiri, por estar localizado nas proximidades do Pico do Imbiri.

Muitos anos decorreram, até que, no princípio deste século, médicos que fizeram a história de Campos do Jordão, como Emílio Ribas, Vitor Godinho, Francisco Romeiro e Gustavo Godoy, descobriram a excelência do clima para a cura da tuberculose.

E agora, na visão de Mário Ferraz em 1940 (escrito em português arcaico):
“Ao fazermos uma pequena parada, um dos companheiros lembrou de contar a historia dos Campos do Jordão, o que passamos a resumir:”

‘As primeiras notícias acêrca de Campos do Jordão, datam de 1700, quando ainda se debatiam os litigios de posse entre S. Paulo e Minas e particulares. Tão agitadas foram as demandas, que o “roteiro” de Antonil disse, certa vez, que ninguem transpunha a “Amantiqueira” (que era como chamavam então a Serra da Mantiqueira), sem lhe deixar sepulta ou pendurada a consciencia’.

‘Entre 1703-1704, Gaspar Vaz, o “Ouyaguara”, aventurou-se em abrir caminho serra acima, em direção ao Sapucahy e Capivary. Por esse roteiro, escreveu o saudoso dr. Olympio Portugal, em brilhante artigo publicado na “Revista do Brasil” – “entrou a primeira gente em Campos do Jordão”. O dr. Romeiro, em seu interessante trabalho dá uma versão segundo a qual foi um morador de Taubaté, – Ignacio Caetano Vieira de Carvalho, o primeiro que teve a gloria de descobrir os maravilhosos Campos. Segundo outros – “elle requerera, primeiramente, sesmaria de 9 leguas, denominando as suas terras – Fazenda do Bom Successo”. Mais tarde, recorda o illustrado medico já citado, surge um tal Costa Manso, de Taubaté, e obtem sesmaria ao lado de Ignacio Caetano. ‘Sob a pressão dos mineiros, Manso pendia por aquella jurisdicção, emquanto Caetano se batia pelo dominio paulista. Conta-se que Ignacio Caetano era do Rio das Mortes e Manso, paulista. O destino, porém, obrigou-os a abrir luta contra as terras de origem’. Diz o dr. J. Romeiro haver Caetano vivido 20 annos nos Campos do Jordão, ‘inteiramente sequestrado do mundo, em companhia dos seus dois unicos filhos, tendo conseguido avultada fortuna, a qual, depois da sua morte, se dizia enterrada perto de velhos pinheiros (*) , o que deu logar a inuteis escavações’…

“Com a morte de Ignacio Caetano, foi grande parte da antiga fazenda adquirida em escritura publica, a 27 de dezembro de 1825, pelo Brigadeiro Manuel Rodrigues Jordão, pela quantia de 10:000$000 (!!). O Brigadeiro passou a denominal-a – Fazenda Natal. O povo, porém, já havia começado a chama-la – Fazenda dos Campos. A escriptura menciona uma legua de testada no sertão das cabeceiras do Piracuama, Campos de São Miguel, Sapucahy e Itajubá.”

“Pouco tempo depois ordenava o Brigadeiro varios melhoramentos e a construção de uma vivenda fidalga que ficava, ao que parece, lá para as bandas de Capivary, que é justamente o ponto mais pittoresco da encantadora região. Até 1860 ainda existia essa habitação, já muito estragada, não tendo, afinal, chegado a ser habitada senão pelos campeiros, visto como o Brigadeiro Jordão falleceu antes que pudesse realisar a sua primeira visita á Fazenda. Figura de relevo no meio social e politico de então, o Brigadeiro mal dispunha de tempo para emprehender a viagem aos Campos, viagem que naquelles tempos era o que chamamos hoje – uma tragedia. Manuel Rodrigues Jordão muito se distinguiu nos tempos da Regencia e primeiros dias do Imperio.”

“Foi membro do Governo Provisorio em 1822, sendo deposto com Martim Francisco, o velho, na “Bernarda”, de Francisco Ignacio. é uma figura historica da nossa Independencia. Com o Barão de Iguape, Antonio da Silva Prado, o Brigadeiro Jordão hospedou em São Paulo, no dia 7 de Setembro de 1822, o Principe Regente D. Pedro, no velho predio de sua propriedade, do canto da rua Direita e S. Bento, posteriormente o Hotel de França e hoje o Palacete Jordão. ‘Herdaram os Campos do Jordão os seus filhos: Manuel Rodrigues Jordão, Amador Rodrigues Jordão, mais tarde Barão de S. João do Rio Claro, Coronel Silverio Rodrigues Jordão e Dr. Rafael Araujo Ribeiro, casado com a sua unica filha. Mas, – conta-nos ainda o saudoso dr. Romeiro – ‘ou por terem recebido grandes heranças mais faceis de serem desfructadas, ou por não conhecerem o valor real do quinhão que coube a cada um nesta fazenda, o certo é que elles não ligaram importancia á propriedade, que ficou por largo tempo esquecida e entregue a administradores incapazes. ‘E, retalhando-a com o correr dos annos, della se desfizeram sem saber ao certo o que vendiam’…”

“Ninguem, até então, diz o dr. Romeiro, havia observado seriamente as excellencias do clima, especialmente com relação ás doenças do peito. Foi depois que alguns medicos de Pindamonhangaba se constituiram donos de parte daquella região e ali fixaram residencia, que se poude verificar com segurança a ação poderosa do seu clima, datando de trinta annos a primeira iniciativa benemerita: a construção de uma casa de saúde, levantada pelos drs. Francisco Romeiro e Gustavo Godoy, ambos filhos de Pindamonhangaba. Foram esses dois clinicos, videntes de alevantados ideaes, que, primeiro, correram o véo daquelle abençoado e formoso recanto da terra brasileira.”

Se a visão antiga de Campos do Jordão era ufanista podemos dizer que continua sendo nosso mal, pois de lá para cá viemos dando títulos a Campos do Jordão na ãnsia de propagar suas qualidades. A chamamos de:

  • O Melhor Clima do Mundo;
  • Campos do Jordão, onde é sempre estação;
  • Campos do Jordão, a montanha magnífica (P. F. de Sá Campello);
  • Campos do Jordão, 1700 metros acima das preocupações (Campello);
  • Campos do Jordão, um pedaço de céu na Terra;
  • Campos do Jordão, mais perto do céu.
  • Campos do Jordão, o paraíso do frio tropical (Jacques Perroy).

Ainda citando Mário Ferraz:
“Nem o ‘ouro branco’, nem o ‘ouro verde’, com todo o seu valor, com todo o seu dinheiro podem dar, podem substituir o thesouro insuperavel que paira lá nos altos da Mantiqueira.”

“O seio generoso da Natureza offerece veios mais preciosos, e, dentre elles, lá está, por entre os alterosos massiços da Serra – o ouro escarlate dos Campos do Jordão, dormitando ainda, quasi inaproveitado, sob a fronde das araucarias. Ouro sanguineo – o da saúde, o mais precioso de todos, que se transforma em globulos vermelhos, em torrentes estuantes de sangue, em fonte rubra de vida.”

“Ide, pois, vós, cansados e enfarados das cidades, sedentos de paz e de bem-estar; ide, tambem, vós, soffredores e doentes, que ladeaes as fronteiras do desengano, – ide, todos, com fé e com o sorriso da esperança, que lá encontrareis, entre o céu azul e os valles verdejantes, o balsamo divino da resurreição!”

Malú Donato
Geca-Holos
Campos do Jordão

Fontes:
Mário Ferraz
Condelac Chaves
Pedro Paulo Filho
Walter M. N. B. Vasconcelos